Nos últimos domingos o Fantástico fez uma série com duas reportagens sobre acampamentos miliares para crianças e adolescentes com problemas de disciplina, além da inspiração militar os acampamentos são comandados por ex-fuzileiros navais com treinamento pesado, nos Estados Unidos.

É um tema polêmico, mas como psicóloga infanto-juvenil não posso deixar de manifestar a minha indignação com esse tipo de método e até alertar aos pais as inúmeras consequências que esse tipo de prática gera em crianças e adolescentes.

Um dos fatos que mais chamaram a minha atenção foi a enquete feita após a reportagem que 86% dos pais brasileiros mandariam um filho para um acampamento desse tipo.

Alguns questionamentos surgem: O que esse tipo de prática gerou em pais brasileiros para concordarem com esse “método”? Qual a atual visão que os pais possuem da educação? O que os pais utilizam hoje em dia quando seus filhos praticam “comportamentos errados”?

Para começar esse tipo de prática infringe o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, inicialmente no Art. 5o: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”. (Grifo meu).

No debate no estúdio alguns pais discutiram a prática e uma mãe diz: mas não estão nem batendo, não há violência. Não se engane que naquele acampamento não há violência, há violência verbal, violência psíquica… e essas são as que mais deixam marcas em crianças e adolescentes, com fortes consequências na vida adulta.

O resultado do fenômeno da violência são crianças sem voz e sem vez, aprisionadas em uma relação desigual de poder, em que só lhes restam submissão à vontade do outro e à renúncia ao próprio desejo. O desenvolvimento, tanto o físico como o emocional, é afetado, o que pode gerar indivíduos com graves dificuldades; e, além disso, como consequências surgem sequelas imediatas ou tardias, também difíceis ou emocionais, traduzidas em sintomas como dificuldades escolares, de relacionamento social, distúrbios psicológicos, até invalidez ou mesmo a morte.

Há violência sim naqueles acampamentos, e muita! Considerei as imagens muitos fortes, pois mesmo as crianças chorando ou demonstrando que não aguentavam mais, ainda continuavam com os seus “métodos”, poderia dizer que essa prática é extremamente perversa!

A violência psicológica ocorre quando os adultos depreciam e inferiorizam sistematicamente as crianças ou adolescentes, bloqueiam seus esforços de autoestima e realização, ou os ameaçam de abandono e crueldade. Dá-se tanto na forma de ação quanto na omissão, causando sofrimento psíquico e interferindo negativamente no seu processo de construção da identidade.

Portanto, são métodos que não educam, o que se educa é a criança desde muito pequena perceber as consequências dos seus atos, terem limites claros e objetivos.

Mais um alerta: o adulto vítima de violência física, quando criança, tende a utilizar padrão de agressão contra as pessoas que ama, podendo transformar-se também em agressor sem se dar conta dos motivos que o fazem agir assim, pois, por defesa, costuma reprimir suas lembranças e sentimentos referentes à violência sofrida.

Questiono também as “mudanças que são de fora para dentro”, onde não se avalia quem é essa criança, qual o seu contexto histórico e toda a sua individualidade.

O ser humano se constitui na interação com o meio, a partir de sua percepção de mundo, da consciência do objeto, repercutindo na consciência de si mesmo. Portanto, cada criança é única, tem um contexto individual e precisa ser tratada como tal, pois suas ações são baseadas em vivencias ao longo de sua trajetória, num momento histórico determinado e inserido em seu contexto sociocultural.

Quem educa necessita saber que a violência, em qualquer uma de suas formas de manifestação na infância, paralisa crianças e adolescentes, além de não educar.

Questiono ainda sobre a reportagem só ter tido a opinião de uma única terapeuta familiar. Faltou a opinião de profissionais da área infantil como psicólogos, psiquiatras e pedagogos durante a própria discussão com os pais.

O assunto referente a limites precisa ser debatido com as famílias, há formas saudáveis de se educar!