Escrever sobre sexualidade juvenil é um enorme desafio, apesar de muitos avanços na sociedade contemporânea a sexualidade permanece sem grandes avanços e com inúmeras contradições, e os grandes temas da sexualidade não são sequer problematizados. A forma de aprendizagem do sexo continua sendo o silêncio, o lugar para a construção da sexualidade é a rua, assim como o mediador para a educação sexual é alguém da mesma idade.

As crianças e jovens precisam ter espaços para a sua identidade de pessoa que é sexuada e que tem direito a ser informada, a poder exercer a afetividade, a adquirir maior compreensão de si, para melhor administrar seu corpo, sua intimidade, seus afetos e paixões.

A sexualidade, parte integral da personalidade humana, influencia sentimentos, emoções e atitudes, tornando-se, por conseguinte, fator de grande importância no desenvolvimento e na vida das pessoas, não implicando, necessariamente, no seu aspecto reprodutivo.

A Organização mundial de Saúde (OMS) define a sexualidade humana como uma energia que encontra a sua expressão física, psicológica e social no desejo de contato, ternura e, ás vezes, amor.

Revelando a afetividade humana, a sexualidade existe na medida em que o ser humano é um ser sexuado como um todo, tanto corporal como psiquicamente. Entretanto, apesar de tão determinante para a vida humana, em decorrência da forma pela qual a maioria de nós foi educada, ainda hoje, tanto nas famílias como na escola, a orientação sexual é relegada aos últimos planos quando não ao absoluto silêncio. Vale lembrar que, mesmo a opção de silêncio, tomada pelos conservadores como a melhor postura em relação à orientação sexual na infância, por não apresentar risco de chocar as crianças, faz do silêncio uma ação educativa poderosa; claro que poderosa e negativa, por gerar resultados altamente indesejáveis e até mesmo desastrosas para a construção de uma vida plena e feliz.

Observamos, ainda hoje, nas famílias em suas diversas gerações, que a sexualidade é entendida como obscenidade, algo não sério, algo que deve ser guardado como segredo e nunca comentado, sobretudo para as crianças. Permanecem a falta de conhecimento, preconceitos, tabus, mitos e, sobretudo, a concepção de que apenas a reprodução justifica o sexo.

A sexualidade infantil é diferente da sexualidade adulta; não contém os mesmos componentes e interesses. E pensar em educação sexual na infância é, pois, pensar também em desenvolvimento emocional, levando-se em conta a maturidade e as necessidades emocionais da criança.

A nossa cultura é permeada por crenças que as crianças não possuem sexualidade, para muitos elas são seres puros, inocentes que não tem sexualidade a expressar. E mais: quando estes princípios se fundamentam em preceitos religiosos, que têm o sexo como algo pecaminoso, as pessoas consideram que a criança, além da assexuada, não deve ser informada sobre o assunto, considerando a sexualidade como prerrogativa apenas do mundo adulto, o mundo que está aberto para o pecaminoso. As manifestações da sexualidade infantil possuem, por este viés, a conotação do pecado, do feio, do sujo, resultado exclusivo de más influencias dos adultos. No entanto a maioria dos estudiosos afirma que as crianças elaboram ideias sobre as relações sociais e de sexo em seu meio; atuam uma sobre as outras como agente socializadores e delimitam os espaços simbólicos de convivência próprios aos homens e ás mulheres.

Com isso, iniciam um ciclo no qual as primeiras construções sociais sobre o sexo se evidenciam nas formas simbólicas de gestos e palavras consideradas obscenas, bem como brincadeiras de erotização do corpo aprendidas entre os pares de socialização.

Entretanto, comportamentos infantis que demonstram a sexualidade são, na maioria das vezes, difíceis de serem trabalhados, tanto em casa como na escola. Brincadeiras de descoberta sexual, masturbação, atitudes que aparentam homossexualidade são alguns fatos comuns observados no dia-a-dia das crianças e, normalmente, são mal compreendidos ou malconduzidos pelos adultos com os quais elas convivem.

Entender as mudanças físicas e psíquicas que acontecem com nossas crianças e adolescentes e abrir espaços para discussões sobre sexo e sexualidade é fundamental para garantir maior igualdade nas relações entre homens e mulheres e diminuir o número de jovens portadores do vírus da AIDS e DST e também reduzir os casos de violência sexual.

Não há momento especifico para se falar sobre sexualidade. A dúvida deve ser esclarecida, com tranquilidade, naturalidade, sem preconceito, a todo momento que surgir. Pode-se usar histórias, filmes, livros ligados à sexualidade e, a partir de conversas, desfazer as dúvidas, da melhor forma possível para discutir sobre o assunto.

É importante a presença de um mediador entre a criança e as informações para que ela possa construir conhecimento sobre a sexualidade.

Conversar com a criança de maneira simples, clara e objetiva satisfaz sua curiosidade. A satisfação dessa curiosidade contribui para que o desejo de saber seja impulsionado ao longo da vida, enquanto que a não-satisfação ou o excesso de informações gera ansiedade e tensão. Pais e educadores não devem se omitir, ao contrário, devem orientar para comportamentos adequados, mas sem passar valores morais reprovadores como se a curiosidade fosse algo negativo, feio ou pecaminoso.

Vale ressaltar que a grande maioria das famílias não apresentam condições emocionais ou conhecimento para tratarem do assunto com os filhos. Embutidos de tabus e preconceitos diziam que “aquilo” não era coisa para se falar com crianças especialmente em se tratando das meninas.

A orientação sexual torna-se, portanto, cada vez mais necessária ao desenvolvimento infantil Considerando que a sexualidade é o “impulso de vida” ou “energia vital”, toda criança precisa de um mundo adulto que possa garantir as melhores condições para o seu desenvolvimento.